16 de agosto de 2017

Descontinuação de investimentos no Carnaval é um acinte à gestão do Rio de Janeiro

Por : *Adm. Wagner Siqueira

Mesmo que tenha tido um final “conjugado” entre as partes, a queda de braço entre o prefeito do Rio de Janeiro, uma das cidades de maior potencial turístico do mundo; a organização do Carnaval, o chamado ‘maior espetáculo da Terra’; e a discussão sobre a descontinuação dos investimentos nos desfiles perpassa a falta de laicidade do governo municipal. Fato que, por abrir prerrogativas, pode ser preocupante para cidadãos, empresas e até órgãos governamentais, mesmo sabendo-se da crise econômica que vivemos atualmente.

Isso porque existem dois eventos que são fundamentais para a economia do Rio de Janeiro, cujos investimentos jamais devem ser cortados, ao contrário, devem ser aumentados por trazer, fundamentalmente, recursos para a cidade: o primeiro é o Fim de Ano, o famoso Réveillon de Copacabana, uma festa tradicional que atrai milhões de pessoas de todo o mundo, gerando riqueza e renda para o município; o segundo, maior até do que o 31 de dezembro, é o Carnaval.

Portanto, qualquer corte de despesa sobre esses eventos sob a justificativa esdrúxula de que vai aumentar o investimento em creches ou qualquer outra coisa é apenas para criar um debate, porque a programação orçamentária deve contemplar as distintas rubricas. Por isso, é visível que vemos que está acontecendo um enorme preconceito religioso do prefeito, criando assim um prejuízo para a cidade. É preciso compreender que a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Esse é o ensinamento bíblico que concretiza a laicidade do Estado.

Com isso, posso afirmar que não dá para misturar religião com gestão. O gestor é fundamentalmente laico. A laicidade do Estado brasileiro não pode ser contaminada com atitudes absolutamente equivocadas por parte do prefeito, que faz uma investida negativa e equivocada na economia da cidade do Rio de Janeiro. Já estamos em crise. E o alcaide poderá contribuir, com essa decisão absolutamente preconceituosa, em tirar da cidade um de seus maiores eventos.

Essa deliberação, que influencia na vida de milhares de famílias que dependem do Carnaval para viver, vai de encontro ao que se propõe para o Rio de Janeiro. Uma cidade que possui claramente a vocação para o turismo, a vocação para a economia do turismo, acaba não tendo o seu papel compreendido pelo principal gestor. É uma resolução equivocada e reacionária à aptidão do Rio de Janeiro.

Isso nos leva à outra questão, que é a forma como o turismo é cuidado no Rio de Janeiro pois, apesar da vocação e das belezas naturais, muito pouco ainda é feito para o incentivo desta indústria. Já que estamos falando de Carnaval, podemos citar como exemplo a própria Cidade do Samba, que é pouquíssimo utilizada como um equipamento turístico, por não ter o apoio da Administração do município, que, mais uma vez, não compreende a importância e o papel fundamental do Carnaval na vida do Rio de Janeiro.


Há muito pouco investimento da RioTur e dos órgãos de turismo da prefeitura. Se olharmos o que a prefeitura gasta em prol do turismo na cidade do Rio de Janeiro, veremos que esses números beiram o ridículo. É necessário entender, afinal, o que é interesse público? Serão públicos os interesses representados por eventuais ocupantes do poder neste momento? O desafio que se coloca é justamente aprender a identificar qual dos interesses é o público, livre do aleijão intelectual e conceptual, e no caso religioso, de vê-los sempre confundidos com os estatais preconizados por seus agentes episódicos.

A valorização cultural, independente de religiosidade, aliada à geração econômica de tal monta, como é o Carnaval, deve ser mantida e bem gerida por qualquer um que ocupe as cadeiras do Executivo do Rio de Janeiro.

Adm. Wagner Siqueira — Presidente do Conselho Federal de Administração e conselheiro federal pelo Rio de Janeiro. Atuou como diretor da Embratur e presidente de instituições como Fesp, Iperj e do RioCentro. Membro da Academia Brasileira de Ciência da Administração e da Academia Nacional de Economia.