3 de maio de 2013

O Administrador e a Cidadania



Não há atividade humana minimamente estruturada no mundo moderno que não se realize por intermédio de organizações. O mundo globalizado é um mundo de organizações. É dentro de uma organização que se exerce ou não se exerce a cidadania, que se encontra ou não se encontra a concretude de realização dos direitos humanos.

É a organização que discrimina o negro, a mulher, a criança, o idoso, o portador de deficiências, o imigrante, as ditas minorias étnicas, religiosas e sexuais. É também numa organização que o totalitarismo encontra as suas mais veementes formas de expressão. A organização é o espaço profissional de trabalho do administrador, o seu lócus próprio de reflexão e de ação.

É numa organização que a cidadania se realiza ou não, que a democracia expressa a plenitude de suas qualidades e de seus defeitos, de suas forças e de suas fraquezas. Mas é também numa organização que o totalitarismo concretiza as suas mais cruéis formas de coisificação do homem, tornando-o mero objeto da vontade de alguém que detenha episodicamente o poder.

Esse é o grande papel do Administrador para a cidadania: obter resultados organizacionais por intermédio da realização humana, compatibilizar a realização de um (interesses da organização) através do outro (interesses do empregado), operacionalizar a democracia cidadã no cotidiano das pessoas.
 
Os desafios da administração face à democracia cidadã

A verdade é que o bem (no sentido moral) e os bens (no sentido econômico) nem sempre se dão bem, correlacionam-se adequadamente, têm compatibilidade. Eis aí um grande desafio para a Administração.
A questão moral (o que devo fazer?) se coloca para todos indistintamente, para mim e para você, independentemente de nossas profissões e posições dentro da organização, de nossas trajetórias existenciais, de níveis de renda, de locais de origem.
A moral se instalou no centro dos debates no mundo das organizações a partir dos anos 1980. Passamos a viver a hegemonia do “politicamente correto”. A moral é o tema da moda e o tema na moda acaba se tornando virtude. As organizações agora querem ser morais, “politicamente corretas”.

Assistimos assim a um retorno da moral no sentido do discurso por organizações que desejam se apresentar como parte da aristocracia da virtude no conjunto da sociedade.


Não é que as pessoas sejam hoje mais virtuosas do que antes. Fala-se muito de moral nos ambientes de trabalho. Mas dela se ressentem muito nos comportamentos humanos nas organizações públicas e privadas.
As pessoas em geral, e os jovens em particular, abandonam a política e empreendem um retorno à moral, agora rebatizada de direitos humanos (a palavra moral é velha, antiquada e arcaica); chamam também de solidariedade, de humanismo, de responsabilidade social, de empresa cidadã, de desenvolvimento sustentável, de ética empresarial, de proteção ao meio ambiente.

Há 40 anos, contra a fome gritava-se pela revolução. Hoje, contra a miséria se avolumam os programas assistenciais de governos e de empresas, de ONGs e de igrejas, de clubes de serviços e de instituições de benemerência. É a ação humanitária empresarial que vai construir um novo mundo, afirmar o lugar comum dominante na hegemonia do pensamento único prevalecente mundo das organizações e na sociedade em geral. 

Diante dos problemas que são coletivos, sociais, conflituais por excelência, logo políticos, a tendência é oferecer respostas individuais, morais, pretensamente éticas, para não dizer até ingênuas, sentimentais e emotivas. Claro, todas essas ações são perfeitamente respeitáveis; nada tenho contra esses programas de assistência social, mas , como é obvio, são igualmente por si só incapazes de resolver o problema como se propõem fazê-lo.

Antes, na Geração dos Anos Dourados, se pensava que a boa política seria a única moral necessária. Já para os jovens de hoje, a moral é tudo! E, assim, uma boa moral lhes parece ser uma política suficiente.

É evidente que antes era um equívoco julgar que a política poderia fazer às vezes da moral. Mas outro é o erro hoje: acreditar que a moral – mesmo rebatizada de direitos humanos, de solidarismo, de humanismo, de empresa cidadã etc – possa substituir a política.

A sociedade se ilude ao contar com programas sociais para acabar com a miséria. Ilude-se, de novo, se conta com o humanitarismo para substituir a política externa ou para minimizar os problemas de imigração. E assim por diante.

A moral e a política são duas coisas distintas, ambas necessárias, mas que não podem ser confundidas sem comprometer o que cada uma delas tem de essencial. Necessitamos das duas, e da diferenciação entre elas. Necessitamos de uma moral que não se reduza a uma política, mas necessitamos também de uma política que não se reduza a uma moral.

E na medida em que os jovens que ingressam nas organizações têm cada vez menos a sensação de poder influir coletivamente sobre o seu destino comum – que é a verdadeira função da política – eles tendem a encerrar-se no terreno dos valores morais.

Vivemos assim uma situação ambivalente: se por um lado saudamos os jovens porque empreendem uma espécie de retorno à exigência moral ou humanista, por outro lado lamentamos que o façam em detrimento de toda e qualquer ação propriamente política. O elo mais fraco hoje no contexto brasileiro não é a moral, como alguns crêem, mas a política.

Os bons sentimentos e as boas ações fazem sucesso, mas o descaso e o desinteresse pelas questões públicas são alarmantes. O elo mais frágil da sociedade brasileira não é a corrupção, mas as instituições políticas que a permitem medrar sem limites.

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