24 de julho de 2017

A “Revolução” Educacional Brasileira e a Neoelitização do Ensino Superior

Por: Adm. Wagner Siqueira*

Há alguns anos que o ensino superior privado no Brasil passa por uma revolução, em termos de controle acionário e, por conseguinte, de ajustes nos modelos de gestão educacional. Uma revolução paralela à outra, a digital, que, dentre outros efeitos, alavanca tremendamente o ensino a distância e potencializa os diversos recursos digitais que proporcionam interatividade e rapidez de resposta.

A crescente globalização, o capitalismo sem fronteiras, o Estado mínimo, a emergência da universalização da educação, as novas tecnologias, as exigências da sociedade e os anseios dos próprios indivíduos, são alguns dos fatores desencadeantes das citadas revoluções. Querer cerceá-los, limitá-los ou proibi-los seria como desejar ilusoriamente conter o avanço da internacionalização das economias, ou seja, a priori, sem efeitos significativos sobre esses movimentos hodiernos.

No meio desse turbilhão de propagandas, cabe aos cidadãos, sobretudo à sociedade organizada, denunciar e protestar contra arranjos produtivos que os induzam ao consumo de bens e serviços que parecem ser vantajosos, mas que à luz de uma análise cuidadosa revelam-se oportunistas pois apostam em uma das principais doenças da hipermodernidade que vivemos: o consumo desenfreado.
Os indivíduos, e aqui estamos falando mesmo de multidões, veem nos bens e serviços a principal fonte para a realização quase que imediata de seus sonhos, dentre eles a mudança de status; a busca por melhores empregos — se não o primeiro; o crescimento e a realização profissional.

O governo brasileiro, (in)competente e (in)capaz de prover o país com políticas de ensino estruturantes, de longuíssimo prazo, do ensino básico ao superior, assiste de braços cruzados as fusões, aquisições, incorporações e falências de grandes instituições de ensino — que seja por falta de socorro governamental tempestivo, por questões de ganância ou por não saberem jogar o novo jogo, sucumbiram diante dos gigantes da área — deixando professores e alunos ao sabor da jogatina financeira.

A questão educacional passa ao largo do interesse desses novos gestores que são responsáveis pelo controle de parcela incrivelmente considerável do ensino superior brasileiro: quase 80% dos alunos universitários estão matriculados em IES que podem não existir até colarem grau. Podem trocar de mãos ou de carteira de ações. Podem alterar matrizes e projetos pedagógicos, por conta das chamadas “otimizações”. Ou deveríamos chamar de jogo de planilhas? Há muito, a pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, foi pautada pela planilha dos financistas.

Os professores, antes zelosos em estudar, pesquisar, frequentar eventos e planejar aulas, sucumbem diante das aulas pasteurizadas que passam a ser obrigados a lecionar, sem autorização para criar e dar o seu tom nas disciplinas agora formatadas para atingirem um público de alunos incautos que não têm ideia do que acontece nos bastidores das escolas.
O corpo docente vai se esfacelando e se tornando acéfalo, infelizmente. Os professores correm desesperados, a cada semestre, de departamento em departamento, de campus em campus, de IES em IES, em busca das horas aula que comporão os seus orçamentos domésticos até o fim do próximo semestre letivo.

Triste sina de uma classe que seria capaz de propor inovações, novas metodologias didático-pedagógicas, reflexões a respeito do estado da arte das disciplinas em debate. Agora precisam, os mestres, seguir a cartilha com os mandamentos impiedosos de um modelo educacional financista que ignora os anseios humanos e que torna o professor um mero tutor fantoche.

E os alunos, empurrados desde o ensino básico, são a massa de manobra mais Poliana, encantados com a chegada ao “ambiente universitário”, raramente dispõem de instrumentos suficientes para contestar os modelos de ensino e as arbitrariedades, quiçá ilegalidades, cometidas contra os seus legítimos interesses de melhor formação intelectual, cidadã e profissional. Os mantenedores das instituições de ensino que se valem desses modelos dilacerantes de gestão educacional estão muito mais preocupados com os resultados que devem ser entregues aos acionistas, e não aos estudantes, aos professores e à sociedade.

Há escolas que resistem heroicamente, algumas de excelência reconhecida, outras de pouca expressão nas mídias, mas que são impulsionadas pelos valores transmitidos por grandes educadores, nacionais e internacionais, que acreditaram e acreditam na elevação do ser humano que possui habilidades e competências que podem ser buriladas no meio acadêmico, via aquisição de conhecimentos, conceitos e técnicas modernas que o levarão a uma nova condição cidadã, social e econômica. Mas essas escolas são, cada vez mais, exceções numa regra dominante na formação de nível profissional superior em nosso país.

A neoelitização do ensino superior brasileiro é decorrente da frustração dos egressos de grande maioria dos cursos que ao se defrontarem com as reais necessidades do mercado de trabalho, descobrem que se tornaram habilitados apenas a ostentar em seus currículos que possuem nível superior formalmente concedido pela IES, mas que não estão aptos a saírem de trás de um balcão, de uma posição no call center ou das vendas de porta em porta.

Significa dizer que apenas uma elite, diminuta, poderá acessar funções, cargos, atividades e trabalhos que exigem elevado desempenho gerencial e estratégico, pois estes frequentaram escolas que exigem, de professores e alunos, leituras, pesquisas, trabalhos que dão trabalho, provas que provam que assimilaram novos conceitos e habilidades, e que poderão se submeter a testes de seleção ou de proficiência para elevados postos no mercado de trabalho, inclusive nos concursos públicos sem necessariamente terem que frequentar cursos preparatórios intensivos.

Esses cenários não são exatamente frutos de pesquisas científicas, mas do contato que temos há décadas com estudantes e profissionais, dos mais aos menos qualificados, especialmente no campo da Ciência da Administração, cujo curso é o de maior frequência no ensino universitário brasileiro, com maior número de alunos matriculados e formados e com maior capilaridade nos municípios deste país. Dados do MEC apontam nitidamente, a cada Enade trienal, para confirmar esta tese: a deterioração das avaliações dos cursos de Administração tem causas que precisam ser atacadas com urgência.

Reverter esse quadro e demonstrar que o ensino de Administração pode ser de grande valor para a sociedade brasileira — e deveria ser, pelas mazelas que devem ser enfrentadas — é um papel de todos os que não se conformam com o fato de milhares de pessoas serem lançadas anualmente ao mercado de trabalho sem a mínima preparação adequada.

Uma das alternativas exitosas de que outras entidades de classe se valem e que causam movimento contrário, no sentido da geração de processos de melhoria de desempenho nas faculdades, é a prova de suficiência para todos os que desejam se lançar ao mercado. A Ordem dos Advogados e o Conselho Federal de Contabilidade enfrentaram o problema e, por lei, adotam a aplicação da prova obrigatória para os bacharéis formados que desejam chegar ao mercado de trabalho. Uma espécie de barreira de contenção que provoca o fortalecimento dos cursos de direito e de contabilidade Brasil afora, para que seus egressos não passem por vexames nessas provas de suficiência.
Quem sabe o maior curso de bacharelado do Brasil, o de Administração, não tenha que enfrentar esse desafio e voltar a trilhar o caminho da busca por padrões de qualidade que atendam as diferentes necessidades do mercado de trabalho que tanto carece de profissionais de gestão capacitados para atender aos anseios da sociedade brasileira.

*Adm. Wagner Siqueira — Presidente do Conselho Federal de Administração (CFA)

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